LITERATURA: do átomo ao bit

                                 
Resumo: O texto aborda a questão do ato de leitura literária no papel impresso e no digital.A questão do prazer da leitura perpassa o saborear a obra. Sentindo o cheiro do livro ou apalpando um Kindle, um I-pad. Da leitura de A vida digital, de Negroponte, à de O livro na era digital, de Ednei Procópio, confluindo com as teorias da aprendizagem e semiótica cognitiva, de Winfried Nöth e Lucia  Santaella, perpassando as aulas de Luis Carlos Petry, no TIDD (Programa de Tecnologias da Inteligência e Design Digital) , da PucSP , Games & Ontologia, a autora busca confrontar o papel do leitor nas novas tecnologias.De todos, em todos os suportes, ler é um ato de prazer barthesiano.

 

Como tudo começou

 

Há tempos, um Kindle habitava uma gaveta esquecida no escritório. Fora presente de um dos filhos. De início, interessante, original. Ler livros de forma digital. Eram poucas as obras e isso desanimava, no entanto. Nunca mais pensou no aparelho, até porque ao mencioná-lo ou andar com ele por aí era motivo de ironia, de gozação. Imagine ler livro dessa forma. É, ninguém sabia ainda do I-phone, do I-pad, dos todos os aparelhinhos que agora carregam livros e muitas coisinhas.

Assim, não mais que de repente, sem muito pensar, a leitura da obra de Negroponte(1995)mudou seu jeito de encarar os livros. De encarar, aliás, tanto papel desperdiçado.

Não que não se importasse antes, era defensora do digital, mas, confessa, pouco atenta às novas tecnologias da inteligência. Era um tanto também preconceituosa como muita gente. Até achava que videogames eram um vício de adolescente. Não é que lendo e assistindo às aulas do prof.Petry (2012) ela também descobriu que aquilo que ouvia como processo de gameficação não era algo pejorativo, antes se tratava de pensar em toda a interatividade que há no jogo.Passou até a encarar com respeito o filho que não se desgrudava dos controles do “brinquedo”.

Uma experiência, no entanto, já havia lhe mostrado que jogar é prática de teoria da inteligência. Orientara um Trabalho de Curso relacionando RPG e Literatura. Fantástica experiência.O trabalho intertextuava Os Lusíadas,de Camões, com o jogo. Maneira de fazer identificação com jovens do ensino médio avessos a obras literárias ( em papel…), mas aficcionados por jogos.

Daí um passo para a leitura da obra de Ednei Procópio(2010). Obra de clareza absoluta até para leigos em vida digital.

 

Há vida criativa no digital

 

A qualquer menção de que o livro acabará, a turba urra. Urraram os seres das cavernas quando descobriram que o papiro tornava a leitura mais fácil?Aliás, segundo Procópio(2010), o livro digital muito se assemelha à leitura de um papiro, basta descer o cursor de qualquer máquina leitora.

Reclamam também todos argumentando que os livros, as editoras, as livrarias e as bibliotecas acabariam.

O que poucos se perguntam é se há no país tantas livrarias e bibliotecas assim.

Alegam também que a exclusão digital é impasse para que leitores possam ler livros digitais. E quantos leitores leem livros impressos? Quantas obras relevantes têm grande tiragem? Somos também excluídos impressamente.

Talvez a nossa geração ainda não se tenha acostumado ao digital, mas pergunte a qualquer criança de poucos anos se ela se interessaria por um livro lido no computador? Bem, no computador, de fato, é chata a leitura, cansativa. Mas em aparelhos leitores ela se torna deliciosa. Se com ela interagimos tanto mais saborosa.

Alguém falou em obra do Monteiro Lobato assim interativa. É demais. Enquanto lê você brinca com as personagens infantis dele.

De qualquer forma, há certa magia no livro, uma magia social. Lançar um livro é um acontecimento. Autógrafos, fotos, flores. Cada novo livro escrito vale pontuação acadêmica. Fica clara a impressão de que o livro digital possa ser publicado com descuido por qualquer desafeto escritor de má qualidade. Há vários livros impressos de má qualidade.

Interessante que aqueles que criticam as obras de arte da era digital não abririam mão da facilidade que a digitalização em PDF – Portable Document Format ou Documento em formato portátil – dá. Nas bibliotecas de domínio público é possível acessar qualquer obra já digitalizada. Obras, muitas vezes, de há muito esgotadas.

Difícil saber como seria o lançamento de um livro digital. Digitalizar-se-ia a assinatura do escritor que a passaria a todos que adquirissem suas obras na Amazom? Presencialmente todos se reuniriam em chat a distância. As filas seriam evitadas.

As editoras virtuais também, como no caso das impressões, precisam ter trabalho serio, como o fazem as grandes redes de livrarias.

De qualquer forma há muita gente talentosa trabalhando em obras digitais.

 

Literatura Digital

 

Quem conhece um pouco da poesia brasileira também conhece o trabalho dos poetas do concretismo, da poesia sonora, da poesia visual. Do verbivocovisual. Já saudoso Décio Pignatari.

Com o digital, a poesia dessas naturezas tornou-se de fato obra híbrida conforme os preceitos de Santaella ( 2001).

Os trabalhos  de Augusto de Campos, como o vídeo-poema “Bomba”, do CD “Poesia é risco” (1995) pode ser apreciado em sua total dimensão de palavra, som e visual na junção das letras, na explosão fonética que faz ver, ouvir, sentir a bomba:

 

http://www.youtube.com/watch?v=h3gzuQ-3R94

 

Como o autor, muitos outros estão trabalhando seus poemas digitais, impossíveis de serem totalmente apreciados se apenas impressos.A interatividade nesse caso é ativada, não se pode permanecer como passivo diante da folha de papel impresso.

 

 

 

Cabe assinalar uma diferença de procedimentos: os estudos sobre poesia

experimental estão mais no âmbito   das tecnologias do que das teorias, desde que nos descolamos dos cânones da poesia concreta na entrada do século 21. Os manifestos, as teorias e os “ismos” que consubstanciavam práticas a partir de propostas conceituais deram lugar a uma práxis mais fluida, aplicada, de experimentações e práticas acopladas e dependentes de tecnologias da informação, no mais das vezes. Lógico que poesia sempre dependeu das tecnologias de seu tempo. É o caso do uso de letras set, de normógrafos, de tipografias e colagens ao alcance dos criadores. Mas agora existe o fator da “convergência tecnológica” que integra digitalmente animação, imagem, voz e texto numa plástica amalgamada, dependente de programas e aplicativos, de suportes e canais específicos. Mutantes.(Antonio:2010)

 

 

No âmbito da poesia digital há de fato muitos trabalhos interessantes, poéticos e criativos.

Quanto à “prosa”, romances, contos, crônicas, a criação digital é feita muitas vezes em sites, blogs, facebook, twitter…e fica à espera de publicação. Publicação impressa. Parece que segundo o pensamento de Jorge L Antonio (2010) o livro só tem valor quando publicado impresso e, claro, por editora de marca reconhecida.

De qualquer forma, um romance totalmente digital e publicado por editora digital já é mais incomum, ao menos entre autores brasileiros.

 

Onde ler?

 

Agora, no entanto, já há muitas opções, ao menos, de e-readers para lermos e-books no formato EPUB como o Kobo Touch lançado no Brasil pela Cultura. Ele tem tela sensível ao toque e oferece várias opções para configurar a leitura, como uma boa seleção de fontes tipográficas. Há também o velho (novo) Kindle da Amazon que só funciona com aparelhos e aplicativos próprios, ou seja, não lê o formato EPUB. Não tem tela sensível ao toque e há poucas opções para configurar a leitura.

E, claro, o I-pad, o I-phone…entre tantos que possibilitam leituras além do uso convencional desses aparelhos.

 

Convergindo átomo a bit

 

Considerando que átomos são difíceis de transportar, é o caso de pensar que um livro bit se desloca com facilidade. Em um leitor de texto é possível armazenar e levar para leitura muitos livros sem excesso de peso.

É possível manter em pouco espaço uma espaçosa biblioteca digital.

Quanto ao cheiro de mofo e a proliferação de ácaros, a incômoda limpeza da biblioteca de prateleiras, adeus, problemas.

Sempre é possível um erro, um hacker, um pirata. Tudo que também acontece com livros impressos em que pese a lei de direitos autorais ser mais incisiva do que já foi. Sempre se pode piratear uma obra, copiá-la. Perdê-la em um banco de metrô.

Mesmo este texto agora enviado digitalmente será entregue e lido, quem sabe,  de forma impressa.

É o hábito.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANTONIO, Jorge Luiz. Poesia Digital.Teoria,histórias, antologias.São Paulo. Navegar. 2010.

NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. São Paulo.Companhia das Letras. 1995.

PETRY, Luís Carlos. Aulas da disciplina “ Aplicações da Teoria dos signos , símbolos e códigos”,   no TIDD. Puc SP. 2012/2.

PROCÓPIO, Ednei. O livro na era digital. O mercado editorial e as mídias digitais. São Paulo. Giz Editorial. 2010.

SANTAELLA, Lucia. Matrizes da linguagem e pensamento. Sonora Visual Verbal. São Paulo. Iluminuras. 2001.

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Duskolino Sete Belezas ou de como o cinema entrou na vida dele.

Naquela primeira vez, Dusk ainda não era Dusk. Nem sequer se parecia a um cão. Um rato o definiria melhor. Vestia uma roupa semelhante àquelas do Super Homem. Hilário, no mínimo.

Não me senti imediatamente atraída por aqueles olhos pedintes de me adote. E nem era adoção. Oh, bichinho caro.

Quis sair, ir embora. Mas, quem resiste ao apelo do filho, puxando-lhe a barra da roupa. Ah, mãe, leva ele, vai? Olha que bonitinho!

Assim ele entrou em nossas vidas, já traumatizado pela rejeição. Pior. Veio de carro de São Vicente até São Paulo sem sequer um dramin. Deve ter me odiado.

Quer vê-lo invocado? Leve-o a passear no carro. Ele detesta.

Pobrezinho. Certa vez, fomos até Santa Catarina. De raiva, nem água ele quis beber na parada em Curitiba. Enfiou-se embaixo do banco do passageiro da frente. Lá ficou todos os 700 quilômetros da viagem. Na volta? Mesmo sufoco. Sem contar o dia em que ele fugiu da casa da praia na Daniela. Como era pra lá de inteligente, voltou exatamente para o mesmo lugar. Para nosso alívio.

São histórias e mais histórias.

E o dia em que pensávamos que ele saíra do prédio da Dé? Lá fomos eu e meu primo a subir e descer os 15 andares do prédio a chamá-lo. Sabem onde ele estava? Escondido embaixo da cama de forma a parecer invisível. Ah, vontade de esganá-lo!

O fato é que esse dachshund passou a chamar-se Dusk por indicação do meu filho mais velho. Crepúsculo. Esse era o Dusk. Bem, ele tinha tudo para ser chamado de Cofap. Ele era igualzinho ao sempre e várias vezes trocado protagonista daquela inesquecível publicidade. Como apelido? Claro, salsicha. Já viram um dachshund? É a essência da salsicha.

Um detalhe aqui necessário. Ao chegarmos a casa, o filho que o nomeou apaixonou-se por ele. Por telefone, havia dito que cachorro pequeno não entraria em casa. Mas, ao vê-lo, a paixão falou mais alto. Amores são assim, inexplicáveis. Assim é também o meu filho. Um tanto inexplicável para falar de amor. Ele ama. É pura ação comunicativa habermasiana.

Dusk não era chegado a humanidades. Nunca foi. Ele gostava de ser cachorro. Na verdade, ele gostava daquelas partes da humanidade que lhe convinham. Dormir na cama conosco, subir à mesa para roubar os bocados das saborosas comidas. Agora, colocar roupa, andar no carro, ser amável? Não, não era de seu feitio. Ele era um cachorro. Morder? Todos os de casa, sempre os de casa, foram mordidos por ele. Dedão de pé era sua parte preferida. Mãos também. Por quantas vezes fui ao trabalho de chinelo e com o dedão arrebentado?As pessoas diziam, o cachorro é seu e te morde? Fosse meu eu já o teria doado!Ah, mas ele tinha personalidade. Se não concordava com algo, a forma de reagir era essa, morder.

O Dusk recebeu dez anos atrás uma companheira, Dhara, também dachshund, mas pretinha. Uma graça. Com ela, tiveram filhotes. Uma beleza e coisa e tal, mas foi preciso castrá-los antes que eu me transformasse em medusa. Esses dois pareciam coelhos. Não dava pra aguentar uma ninhada a cada seis meses. Meus filhos detestaram a ideia de ver os filhotes doados e os cães castrados. Acho que nunca me perdoarão. Nem eu a mim mesma. Mas fazer o quê? Não sou dona de canil, não sei administrar isso. Dois cães já eram muita responsabilidade.

Ambos ficaram bem. E apenas amigos.

A Dhara é chegada a humanidades. Até demais. O Dusk continuou a ser superior e mordendo a todos nós.

Uma única concessão incrível é ver a Isabella e o Dusk. Ela faz com ele o que bem quer e ele na dele. Nem rosna. Isabella é a minha neta. Tem quatro anos. E ama animais, cães preferencialmente. Dusk e Dhara preferencialmente. Acordo fechado.

E o cinema, onde entra nessa história duskolina?

Pasqualino Sete Belezas é um filme de 1975, de Lina Wertmüller. Pasqualino é um personagem irresistível. Um sem caráter maravilhoso.

Vi esse filme no cinema ainda jovem e me apaixonei pelo ator Giancarlo Giannini e pelos filmes da Lina.

Esse ar irreverente de Pasqualino pairou sobre o Dusk. Ele não era mau caráter, mas tinha a mesma arrogância de Pasqualino. E o som italiano da pronúncia me fez pronunciar assim aquele cão que não queria saber de humanidades: Duskolino Sete Belezas. Não sei se as irmãs de Dusk eram sete como as de Pasqualino. Nem se não eram belas, mas assim o diziam, como as irmãs de Pasqualino. O fato é que em casa acho que nem sabiam de nada sobre a Lina ou o cinema italiano ou sobre o verdadeiro Pasqualino. Imitavam-me no apelido.

Quem gosta de repetir-me é a Isabella: oi,Duskolino Sete Belezas! Falamos com aquele sotaque macarrônico italiano. Cadenciando as sílabas.

Assim, Dusk virou cinema. Como ator cinematográfico, ele entrou àquele patamar dos imortais. Tratado com deferência, seu ar já superior excedeu todo e qualquer limite. Reinava absoluto sobre a Dhara e sobre todos nós.

Volta e meia, ao puxarmos as cadeiras da mesa de jantar, soltamos gargalhadas ao lembrarmos o dia em que ele, bem quietinho, roeu os pilares da mesa. Sorte que o alto dos pilares é que sofreu o desgaste canino. Má sorte teve o móvel da minha tia ou os pés da antiga cama de casal que virou o poste predileto de Duskolino.

Em que pese todos os cuidados de humanidades que ele recebeu de todos nós, o tempo foi inexorável com ele. Como é com todos nós.

Ele viu derrocadas, viu chegadas, partidas, riu e chorou muito comigo.

O tempo desgastou-o também psicologicamente. Como a mim. Sorte eu ser como sou. A idade ainda me é leve. A dele, nada indelével.

Aos poucos, estranhamos que ele batesse em tudo ao caminhar pela tão conhecida casa. Pronto e paf: a cegueira invadiu sua visão. Doía vê-lo perdido nas caminhadas. Acostumamo-nos. Al Pacino e Duskolino seguiam-nos pelo faro.

Por conta da cegueira, não podia ouvir o tilintar da ração em sua vasilha.Corria e batia-se muito, mas chegava a ela como se fosse comer pela última vez.

Os males da idade foram ainda mais cruéis ao lhe trazerem dois tumores no baço. Impossível cirurgia por conta da idade. Afinal, um cão com 17 anos está beirando os 84. E daí, não está ainda em luta o bravo arquiteto do alto de seus 104? Com dificuldades, claro, mas lá está.

O Dusk abateu-se muito no último ano. Seus caninos comprometidos provocaram infecção. Ele não deixa ninguém limpar seus dentes. Com a focinheira a tarefa fica impossível. Só com anestesia. Mas se pode perdê-lo ali mesmo na anestesia. Já abatido, não quis comer. Mal. Isso é mal.

Veterinário. Diagnóstico: há que interná-lo. Os rins estão parando. A infecção bucal acelerou. Dois dias com soro, medicação e mais e mais invasões de humanidades. Logo ele, que as detesta. Dois dias para que melhore um pouco e seja possível operá-lo sem riscos.

Eutanásia? Falei fácil. Rápido demais. Agir? Difícil. Vamos até o fim: soro, mais remédios, mais isso e aquilo. E lá está ele na clínica. Ele que jamais saiu de casa sozinho. Lá está ele. Ao seu lado, vários outros animais. Um picou-lhe uma jararaca. Outro comeu um saruê já morto.

É hora de visita, vejam só. Diz-me o veterinário que ele se anima quando estou lá. Falo com o Dusk. Conto-lhe das coisas de casa, dou-lhe notícias da Dhara. Digo que logo ele estará de volta. Nem eu mesma acredito no que falo. Ele não me vê, mas percebe-me o cheiro, a voz. Tenta com esforço ficarem pé. As patas inchadas. Dou-lhe água com as palmas da mão. Controlo-me. Não quero chorar à frente dele. Logo ele, tão cachorro.

Pergunto-me: o que será que ele me diz com o rosto tão abatido?

Meu filho diz que ele pede para ir embora, já cuidou demais de todos nós.

E eu? Eu não encontro coragem frente àquela figura frágil.

Fosse um gato aquela seria apenas mais uma de suas vidas. De repente, animo-me. Ele também, ele também. São sete belezas. Apenas uma lhe foi abatida.

Regozijo-me: Duskolino Sete Belezas.

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Maternidade

Havia dois meses, o mundo girava em torno de novos bebês.Grande parte de bebês meninas.Se é verdade que poucos bebês têm nascido, ela pensava que algo, então, estava em desacordo.

Nas ruas, uma multidão de grávidas atravessava calçadas lentamente, mãos segurando a frágil forte barriga.Por que as mamães seguram suas barrigas?Terá a força da gravidade impacto sobre elas?

Ouvia de alguém: menina, seios fartos, não é gravidez? De outro: que coisa! Tantas tentativas, esqueceu, levou a vida adiante, eis que o médico lhe diz: gravidez!

Ah, e aquele dia na maternidade? Pães de mel cheirosos distribuídos a todos os visitantes. E quantos visitantes. Estamos mesmo em um hospital? Isso aqui parece uma festa de boca livre, a todo o momento, chega e chega mais alguém. Falam alto, gritam, exprimem uníssonos a alegria da espera pela parturiente.

Parturiente?

Pobre da futura mamãe. Agoniza aqueles últimos minutos entre sabedorias tantas: olha, se chorar, coloca de barriga para baixo. Chupeta? Nem pensar. Claro, você também sabe, é dentista.

Lá por dentro, o pensamento é uno, único. Minutos para minha menina chegar, estou apavorada. Por que não se calam todos? Uma campainha avisa que está na hora de ir ao finalmente parto. Que parto! Mesmo.

Sai a parturiente, atrás dela correm todos. Cada qual quer a melhor foto, o melhor ângulo.

Parada obrigatória. Daqui em diante, só passa a mãe. E o pai. Fim da linha. Óóó.Nem a mamãe? Afinal, eu sou a mãe? Não, minha senhora, não. E eu? Não posso? Afinal sou o pai?Não, senhor, não pode. Óóó.

Já que jeito não há, entreolham-se. Corramos. Sabe-se que há uma janela que a tudo se pode ver. É como estar lá dentro. Vê-se tudo. O corte na barriga. Era uma cesariana. O sangue que se acumula no pano azul. O atônito olhar daquele pai que nem sequer sabe para que lado olhar.

Momento magnífico. O bebê é retirado da mãe. Chora desesperadamente. É bom, dizem. Sinal de saúde. Ela pensou que poderia desabar em choro ali mesmo em meio a todos. Era sinal de saúde. Saúde ou falta de sanidade? Estaria enlouquecendo com todas aquelas cenas maternais?

O show termina, fecham-se as janelas.Não, alguém alerta. Agora é correr para o berçário. Lá veremos mais ainda do bebê.E a mamãe? Ah, sem problemas, está tudo bem. Serão pontos, fim da cirurgia. O tempo para passar os efeitos da anestesia. Ela fica lá. Só médicos.

Aquela mamãe que se descobre grávida sem querer também traz para essa enormidade obscura mais um bebê. O hospital é mais tranquilo. Não há muitos efeitos ornamentais.O quarto é arejado e tranquilo. Sabe-se. Aqui só sobem três pessoas, no máximo.Alívio. Dorme o bebê. Serena está a mãe que se esforça por ficar acordada depois de tanto choro naquela noite. Por que os bebês choram tanto? E por que exigimos que as mães nos pareçam sempre felizes? Ah, tudo bem. Não tem problema. Ela pensa que talvez não tenha sido uma boa mãe. Não, não, era feliz, sim. Mas em alguns momentos aqueles bebês lhe tiraram o sorriso falso do rosto. Oras, é preciso apiedar-se dela. Era apenas uma mulher. Ainda não aprendera que a maternidade pode esconder-lhe.

Sentia-se calma. Confiante. Alguma coisa lhe dizia que era o momento de levar-lhe a correspondência.Aproveitou, escolheu algumas laranjas que trouxera do interior.Chave à mão, já está na rua. Caminha e para porque viu ali bem à frente um lindo flamboyant. Flores vermelhas em seus troncos braços longos. Tão lindo. Apressa-se a registrar a cena. Caem as laranjas. Entre a foto e as frutas ela fica. Levanta os olhos mais uma vez para aquela árvore.Vira tantas iguais no último fim de semana, mas aquela, naquela rua, a sua rua, era especial. Dizia-lhe algo profundo. No fundo, ela já sabia.Ela já sentira aquela emoção há alguns anos. Já algo de si passava à mais uma geração. Pensou que talvez as coisas parassem de seguir. Mas ela seguiu adiante pela rua, a mesma rua.
Entrou naquela casa. Laranjas e correspondência sobre a mesa. Deixou as chaves ali mesmo no balcão.A conversa era vazia e era cheia. Desimportante e muito profunda.

Ela não sabia que a verdade já estava pronta naquele momento. Achava-se no banheiro.Retratava-se em um pequeno palitinho que mostrava duas cores rosa.Ela não via, mas sabia.

Alguns segundos e a porta se abre. Duas pessoas sorriem, cúmplices. Ela testemunha.

Serão nove meses até a próxima maternidade.

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